quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

A Guerra do Fotojornalismo

O mês de fevereiro começou com uma denúncia bombástica no mundo da fotografia. O documentário The Stringer(2025), que estreou no Festival de Sundance, na Califórnia, trouxe o argumento de que a icônica fotografia "Garota de Napalm" foi creditada ao fotógrafo errado. O fotojornalista Nick Ut ganhou um prêmio Pulitzer pelo registro da cena marcante da Guerra do Vietnã. No entanto, cinquenta anos depois, outro fotógrafo surgiu reivindicando a autoria da imagem.


O filme apresenta uma entrevista com Carl Robinson, editor que trabalhava no escritório da AP em Saigon no dia em que a imagem foi captada. Na entrevista, ele afirma que o chefe de fotografia, Horst Faas, ordenou que ele escrevesse a legenda da fotografia atribuindo-a a Nick Ut. Depois dessa entrevista, os realizadores conseguiram identificar o nome do fotógrafo freelancer vietnamita, que aparece em outras fotos do mesmo dia: Nguyen Thanh Nghe. Nguyen afirma ter certeza de que foi ele quem tirou a fotografia que ficou conhecida como “Garota de Napalm’’.


O fotojornalista Nick Ut, a AP e Horst Faas negam as denúncias e afirmam que será aberta uma ação por difamação contra os realizadores do filme.


A fotografia mais marcante da Guerra do Vietnã mostra um grupo de pessoas fugindo de um ataque de napalm. Entre elas, a garota Phan Thi Kim Phúc, de nove anos, que corria nua, após tirar suas roupas que estavam em chamas. A imagem foi amplamente divulgada pela imprensa internacional e se tornou um símbolo do custo humano dos ataques, influenciando a opinião pública, principalmente nos EUA, a protestar pelo fim da guerra.


Na Guerra do Vietnã (1955-1975), os EUA investiram bilhões de dólares para conter a expansão do comunismo no Sudeste Asiático, ampliando seu envolvimento militar no Vietnã do Norte, no Laos e no Camboja. Acompanhando um exército americano bem estruturado, muitos jornalistas estiveram na linha de frente, registrando as operações militares. Foi o conflito mais documentado do século XX, e ficou conhecido como "a guerra do fotojornalismo".


sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Quem deixou a forminha de gelo sem água?

O audiovisual é a principal linguagem de consumo. Maratonar séries na Netflix tornou-se um hábito tão consolidado quanto o gosto dos pelotenses por maionese. Inclusive, vamos fazer um bom uso dessa iguaria, maionese é apenas para comer, não para viajar. Pois, há outro hábito que nos leva a verdadeiras viagens e que domina nossa rotina: assistir vídeos nas redes sociais.


Quantos vídeos uma pessoa assiste diariamente no Instagram? Eu chutaria algo em torno de quinhentos a mil, para um usuário médio. Agora, para quem nasceu na era da internet e está agarrado à tela desde o berço, aí a conta vai longe. Mas, na minha infância, eu também estive na linha de frente dessas estatísticas. Quando a PANSAT começou a operar, seguida pela NET, a TV a cabo causou um impacto semelhante.


O TikTok dos anos 90 era o Cartoon Network. Era fácil passar mais de dez horas assistindo desenhos. Para melhorar essa experiência, era necessário um pouco de habilidade na cozinha, pois os nuggets eram preparados no forno a gás e a pipoca na panela. E, como pipoca é sinônimo de cinema, o interesse pelo canal Telecine surgia naturalmente. Em um verão como este, enquanto os amigos brincavam na rua, assisti a M, O Vampiro de Dusseldorf (1931) e Um Retrato de Mulher (1944), ambos do diretor Fritz Lang. Clássicos inesquecíveis. 


Janeiro de 2025 iniciou promissor para o audiovisual brasileiro. Fernanda Torres conquistou o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama pelo longa Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles. Um prêmio inédito que está influenciando o interesse dos espectadores pelo cinema nacional. Nas tardes de férias de verão, não há nada melhor do que escolher um filme, botar a pipoca para estourar no microondas, pegar uma bebida no armário, abrir o freezer e se deparar com a surpresa: quem deixou a forminha de gelo sem água? 


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O dicionário Oxford veio nos lembrar do nascer do sol no Laranjal

A internet surgiu com a esperança de aproximar as pessoas e qualificar o debate social. Nos anos noventa, o sociólogo Pierre Lévy escreveu que o mundo virtual democratizaria o conhecimento, promoveria a comunicação contínua e, quem sabe, melhoraria o convívio entre as nações. Até certo ponto, isso de fato aconteceu. Como estamos habituados, as plataformas que hoje conectam a população mundial são conhecidas como redes sociais.

As redes sociais revolucionaram as relações interpessoais. Lembro que um dos benefícios iniciais foi permitir que as pessoas se reencontrassem: amigos que se mudaram para outros estados, parentes desaparecidos, colegas que estudaram juntos há mais de trinta anos conseguiram se conectar — de graça — e compartilhar notícias de suas vidas. Contudo, há um lema cyberpunk (hoje atribuído ao documentário O Dilema das Redes) que afirma: “Se você não está pagando pelo produto, o produto é você”. A grande inovação mercadológica das empresas do Vale do Silício está na coleta massiva de dados, aliada à publicidade direcionada.

Com o avanço do mundo digital, o smartphone levou a internet para o bolso das pessoas, e as redes sociais evoluíram de um espaço de conversa para plataformas de compartilhamento de conteúdo. Atualmente, essas redes mantêm a atenção dos usuários com timelines de rolagem infinita, estimulando um alto consumo. Como consequência desse hábito, surgiram problemas de saúde. Estudos apontam que o uso excessivo de redes sociais, especialmente entre os jovens, reduz a curiosidade por exercícios intelectuais e, consequentemente, o interesse pelos estudos.

A palavra do ano escolhida pela Oxford University Press é “Brain Rot”, que significa “deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa”. Atualmente, a expressão é usada para descrever a patologia causada pelo consumo excessivo de conteúdo trivial online. Porém, o termo apareceu pela primeira vez no livro Walden ou A Vida nos Bosques, do filósofo americano Henry David Thoreau, um transcendentalista que buscava, em meio à natureza, “reduzir a vida ao essencial”. Entretanto, não é necessário se mudar para o mato, mas neste verão, passar um tempo com a família aproveitando a natureza pode ser uma experiência interessante. Em Pelotas, não temos o lago Walden, mas contamos com a Laguna dos Patos e um nascer do sol deslumbrante na praia do Laranjal.

P.S.: Não se esqueça de levar o celular, gravar tudo e publicar nas redes - eu também quero ver.



segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Terminado este café, vou até a Feira do Livro

A tampa da caneta BIC ganha marcas de mordidas enquanto tento puxar da memória respostas para: “Fato que ampara a decisão judicial → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”; “Moeda da Arábia Saudita → _ _ _ _”; ou ainda: “Caminho da cruz → _ _ _ _ _ _ _ _”. Eu poderia estar com a mão no queixo, como na escultura O Pensador, de Rodin. Na verdade, estou com uma expressão meio boba, fazendo palavras cruzadas em uma edição do jornal A Hora do Sul, apoiada no balcão do Café Aquários.

Quem gosta de palavras cruzadas sabe que pedir ajuda ao Google ou ao ChatGPT tira toda a graça do jogo. É instigante encarar os enigmas: “Único ácido nucleico do vírus → _ _ _”; “O pesquisador como os irmãos Villas-Bôas → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”; “Ator que viveu Moacyr na novela Cara e Coragem → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”. Ir contando o número de letras e se perguntando: que palavra será essa?

Foi nesse mesmo balcão que vi um cruzadista resolver quase todas as palavras do quadro antes de terminar a xicrinha de café. Num primeiro momento, duvidei da habilidade dele. Quis acreditar que era um farsante, um exibido que preenchia os quadrinhos de forma improvisada, anotando qualquer palavra que coubesse. Mas a revista Coquetel que ele usava era um tomo com mais de cem páginas.

Quem carrega uma revista Coquetel desse volume deve ser um mestre, um clínico geral das palavras. Por isso, irei buscar outras palavras que me ajudem a cultivar esse novo hábito. Terminado este café, vou até a praça comprar alguns livros na 50ª Feira do Livro de Pelotas.

Soluções: 10/precedente; 4/rial; 8/via sacra; 3/ARN; 10/sertanista; 14/Marcelo Serrado

domingo, 14 de abril de 2024

O dia em que o Ziraldo me ensinou a ser eu

 Talvez por não estar passando nenhum desenho legal na TV, pedi à minha mãe para alugar uma fita e assistir um filme no videocassete. Nessa época, eu tinha entre 6, 7 ou 8 anos. Com uma naturalidade surpreendente, ela concordou que eu fosse a locadora e escolhesse o filme que quisesse. Porém, fez uma ressalva: “Não vai pegar de novo aquele do Menino Maluquinho, tu já viu duas vezes‘‘. Esse foi o dia em que o Ziraldo me ensinou a ser eu.

Pois lá fui eu todo prosa, pela primeira vez, sozinho, escolher um filme. A locadora ficava a umas três quadras da minha casa. Eu estava acostumado a servir de estafeta para ir à padaria ou ao mercadinho fazer pequenas compras. Na locadora, no entanto, além dos filmes de terror que me faziam dormir de luz acesa, tinha uma salinha reservada, que eu respeitava sem mesmo ter ideia do que era, onde só entravam adultos.

As paredes eram forradas de suportes nos quais ficavam encaixados os encartes das fitas VHS. Nos encartes dos filmes disponíveis, ficava inserido uma etiqueta de papel que era entregue ao atendente no balcão. Enquanto escolhia, fiquei em dúvida entre um desenho da Disney e uma série japonesa com um herói futurista. Dando mais uma olhada, reparei que na parte de baixo da parede havia três cópias de “Menino Maluquinho – O Filme‘‘, e apenas uma delas continha a etiqueta.

Ziraldo nos deixou este mês, aos 91 anos. Foi um homem dedicado à infância. Sua obra de um humor elegante, incentivou muitas crianças a compreenderem o mundo. Ainda nas séries iniciais, também assisti a um curta-metragem educativo com o nome: “Ler é mais importante que estudar‘‘. Essa frase me transformou em leitor. E é com ela que venho construindo minha vida. Por tudo isso, naquela tarde na locadora, entendi que a orientação da minha mãe não condizia com a vontade que eu senti de rever o filme naquele momento. Num impulso de personalidade, puxei a etiqueta e voltei correndo para casa para assistir o Maluquinho.


sexta-feira, 12 de abril de 2024

O melhor romance contemporâneo

Olhei de novo, depois de um hiato torporizado, para a tela do celular, que ainda exibia uma matéria sobre o assassinato de Andrei Dukelsky no site da Zero Hora. Dei scroll na notícia, molhando toda a tela de vidro do iPhone com o suor do dedo. De acordo com a namorada do Andrei, uma tal de Francine Pedroso, ele tinha saído para correr em torno das nove e meia da noite e levava consigo somente a chave de casa e o smartphone, que foi roubado pelos criminosos. Não havia testemunhas, embora o local onde o crime aconteceu fosse uma área de movimento moderado, mesmo à noite. “Um dos maiores novos talentos da literatura brasileira contemporânea”, era o aposto que o texto lhe concedia. “Duque, como era chamado pelos amigos”. Havia uma hashtag #AdeusDuque oferecendo consulta instantânea às manifestações de choque e tristeza de seus leitores e amigos nas redes sociais. Não tive coragem de clicar nela.

“Meia Noite e Vinte‘‘, Daniel Galera - Companhia das Letras, 2016

domingo, 21 de janeiro de 2024

As diversas faces de um escritor

Essa semana eu fui visitar o poeta, Valder Valeirão. Naturalmente acreditava que trocaríamos ideias com referências do caldo artístico que sorvemos ao longo da vida. Asim, filosofamos e tomamos chimarrão. Eu não o conhecia pessoalmente e, apesar de acompanhar sua carreira como design, não tinha noção do tanto de trabalhos que passaram pela sua criatividade. O espanto foi quando nós começamos a remexer em sua biblioteca. O Valder me falou sobre o livro do "domenico m. miglio", eu respirei fundo.

Como assim o Monquelat escreveu um livro com pseudônimo? Fiquei muito surpreso. Entendi que apesar de ter frequentado a livraria do A. F. Monquelat por anos, ainda faltaram conversas. Havia assuntos que eu não tinha conseguido captar, talvez pela minha pouca idade, talvez pela minha ingenuidade. Agora, estava em minhas mãos um livro inédito, de um amigo que muito me influenciou na arte da leitura.

Quando eu me deparei com a capa do livro: Luíza (caminho de uma paixão), senti a mesma sensação de quando peguei em mãos, na própria livraria Monquelat, o primeiro volume do romance, Asfalto Selvagem. Eu sabia que ali estava escrita uma obra surpreendente, talvez surpreendente para o meu paladar de leitor. Um paladar que devorou Luíza numa sentada. E ao mesmo tempo que ficava alegre a cada passagem lida, me sentia traído por não ter sido apresentado ao texto pelo autor. 

Com isso fiquei matutando sobre a personalidade do escritor, ou as múltiplas personalidades do escritor, e suas várias faces. O Adão, mais uma vez, me surpreendeu. E me surpreendeu como artista, me surpreendeu com sua obra. Ainda quero escrever melhor sobre Luíza. Realmente tive uma epifania do que é um escritor, e que realmente há literatura em Pelotas.



sábado, 13 de janeiro de 2024

A cerveja gelada reuniu a turma de sonhadores

Praia, sombra e água fresca: a fórmula do conforto no verão. Quem tem dinheiro se retira para relaxar na lagoa ou se embalar nas ondas do mar. Mesmo aqui pertinho, no Laranjal, ou na maior praia do mundo, são refúgios mais interessantes do que apreciar o sol escaldante sobre o asfalto. Na cidade, só ficam os proletários, os desocupados e jornalistas como eu, que têm de ganhar a vida.

Mas entre um dia e outro, tive um período de recesso e pude colocar o celular no silencioso. Assim, vagabundeei tranquilo pelas livrarias em busca de maravilhas intelectuais feitas por esses tais seres humanos. Num desses dias, voltando para casa, encontrei uns amigos bebendo cerveja. O sol já havia caído e um vermelho-púrpura tingia o crepúsculo.

E de um punhado de amigos foram se juntando outros, e mais alguns, até formarmos um grupo de vagabundos iluminados. Sonhadores que narravam os prazeres da criação, o nascimento de ideias e sua elaboração através da pintura, música, fotografia, desenho, escrita... Foi a noite quente do janeiro pelotense, e a cerveja gelada que instigou a confraternização daqueles que acreditaram na arte com todo furor de sua juventude.

E no meio da madrugada, na boa e velha esquina do Papuera, ríamos cambaleantes e lembrávamos de planos feitos para vida, em alguma noite de tempos passados nessa mesma esquina do Porto. Assim como eu sonhava em escrever algo como Sal Paradise: naquela época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah”.


domingo, 7 de janeiro de 2024

Ideias para uma leitura experimental

Para avançar na leitura é preciso bunda na cadeira. Ou mesmo, estar atirado num sofá confortável. Mas, nem sempre se consegue um ambiente adequado. No verão, o ato da leitura é mais aventureiro. Digo isso, pois, no verão aqui em casa é possível ler em todos os cômodos, o que no inverno não é bem assim. No inverno é frio como na São Petersburgo do Raskólnikov, e úmido como gabardine londrino. Voltamos então ao verão...

Sinta essa brisa soprando do janelão da sala, tão refrescante, tão compatível que ajuda inclusive no passar de páginas. Até no quartinho do fundo, no cantinho das roupas sujas, onde dorme a quinquilharia, ao lado do caixote de livros que serão doados à igreja, se transforma num local propício para praticar a imaginação. É como se a leitura no verão déssemos para procurar locais de poder, como o brujo Don Juan ensinava ao Carlos Castañeda.

Isso me deu uma ideia, iniciar uma prática de leitura experimental. Vocês já imaginaram ler de cabeça para baixo? Ler em um pé só? Ou mesmo equilibrar o livro sobre os joelhos? Poderíamos qualificar essas técnicas a uma espécie de Yoga: o Yoga Literária, ia ser experiência de transcendência com letras. Humm... senti a lâmpada acendendo.

Com isso, lembrei do Paramahansa Yogananda, o cara que disseminou a Yoga no ocidente. Como de hábito, sua data de nascimento é 5 de janeiro, e todos sabemos: o hábito faz sim o monge. Então, nesse verão, para entender um pouco mais dos princípios básicos da espiritualidade e da meditação, procure o livro “Autobiografia de um Iogue”. Quem sabe leia fazendo o Trikonasana. 

domingo, 31 de dezembro de 2023

Quer ler mais? Aprenda o passo a passo de uma técnica infalível

De acordo com o tamanho dos jornais de domingo, as pessoas tem mais tempo para leitura quando não estão trabalhando. Com isso, compreendo que, nos dias de semana é difícil parar e se concentrar em um texto. Se o texto do jornal não for de interesse pessoal, passa batido. Assim como um reel de uma prensa de 100 toneladas esmagando moedas.

Se o texto estiver em livro, aí é coisa de excepcionais. No cotidiano pelotense, não é comum vermos pessoas lendo em espaços públicos. Eu mesmo já me senti observado quando empunhava um pocket no ônibus, ou na fila do banco. Como fazer as pessoas gostarem de ler? Essa resposta vale milhões.

E aqui no blog, queremos encontrar essa resposta. Para isso, contamos com você. Não precisa enviar um PIX, nem parcelar no crédito, o tesouro mais precioso da pós-modernidade é sua Atenção. Coloque a leitura nos seus objetivos para 2024. Vamos trocar nossas impressões do mundo através do texto. Uma coisa eu posso garantir: vale a pena ganhar tempo com leitura. Estarei aqui aos domingos.

Agora o gran finale, a divulgação daquilo que você veio aprender depois de ler o título. Bom, já adianto, não é uma técnica nova, mas certifico que é infalível. Desde os leitores chineses do deserto de Taklimakan, onde foi escrito e copiado para o papel o Sutra-Diamante, considerado o mais antigo livro da civilização, essa técnica vem sendo praticada. Então vamos lá, passo um: sente-se uma poltrona confortável; passo dois: pegue um livro de sua preferência (indicaria A Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro, com passagens interessantíssimas de humor e sacanagem); passo três: abra o livro e inicie a leitura.

Feliz Ano Novo

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Palavra nova que dispensa explicação

A primeira vez que ouvi Novos Baianos, num apartamento enfumaçado no início dos anos 2000, aprendi uma nova linguagem. 

O sol se punha e seus raios alaranjados mostravam o efeito tyndall na dançante fumaça densa e cheirosa. Uma luminária com lâmpada de lava borbulhava. Estirado para dentro do sofá, sentia um sensação de prazer nos olhos.

A cantora ensinava: "Be-o-bó-le-a-la, bola / Te-é-té-le-a-la, tela / A-te-é-té-le-a-la, a te lá / Te-Lê-a-la-le-e-lê-li, lua / Re-a-rá-rê-e-ré-rê-e-ri, rua". Palavras novas que dispensavam explicação. Pra lá, muito pra lá de alucinação. Era a Linguagem do Alunte.

Uma banda crivada de criatividade. Gosto de dizer que é algo meio Jimi Hendrix misturado com Chiclete com Banana. Uma convulsão em percussão e guitarra eletrônica, teclado, cuíca e samba and roll.

O disco Novos Baianos F.C. completou 50 anos.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Um motivo para arrumar a bicicleta

Muito se fala sobre a importância de acorda cedo para o dia ser proveitoso. Eu acredito. Inclusive, esses dias,  na padaria, apontei para a vizinha o livro O Milagre da Manhã, que estava na revistaria perto do caixa. Ela comprou pão e livro, eu fiquei com pão e leite.

Ingredientes para o café da tarde, é claro. Pela manhã, no máximo, eu saio comendo uma fruta. Não por falta de apetite, pelo horário estar estourando mesmo. Acordar cedo é como comer  hambúrguer de lentilha.

Sempre achei que poderia ser jornalista, mas nunca me imaginei jornaleiro. Eu gostaria de ir de casa em casa (hoje em dia poucas), deixar o jornal na porta do assinante. Mas em Pelotas só há jornal matutino.

Tá aí uma boa ideia, um jornal vespertino, algo tipo: Jornal da Noite. Um jornal que seja entregue por volta das 18:00 horas, com as notícias fresquinhas que aconteceram no mesmo dia. Se esse jornal sair do papel, quem sabe eu comece a pedalar mais. 


terça-feira, 25 de julho de 2023

211 anos em onze livros de Pelotas

Fui à prateleira de autores pelotenses com a ideia de fazer uma lista com onze romances. Poderia começar com “A Revolta dos Agachados” de Luiz Carlos Freitas, juntar com “Senhora do Amor” de Manoel Soares Magalhães, “Os Fios Telefónicos” de Fernando Melo e fechar um quarteto com “Satolep” de Vitor Ramil. Este último é marcante para a alfabetização artística e histórica da cidade. Conheço pessoas que, depois de lerem "Satolep", começaram a se dedicar à fotografia, outros a escrever poemas e alguns a beber absinto e correr dentro do canalete.

Ainda roçando as lombadas, percebi que havia outros gêneros indispensáveis. Folheei “História aos Domingos”, com artigos publicados no Diário Popular por Mário Osório Magalhães. Ao lado estavam “Pelotas dos Excluídos” e “No Tempo dos Chafarizes” de A.F. Monquelat. Tirei da prateleira e coloquei na mesa “Retratos de Uma Cidade”, um catálogo com fotografias de 1913 a 1930, de Raquel Schwonke e Francisca Michelon. Um livro fantástico para enxergar o quando a cidade se modificou pouco em cem anos.

Imerso nesse esquema, reli os versos: Cismas... os campos reverdecem úmidos, / E o vento arrulha no cipreste esguio; / Passa cantando a sertaneja pálida, / Dorme chorando o laranjal sombrio, do poema “Auras da Tarde” de Lobo da costa. Em seguida, ergui o clássico dos clássicos da linguagem e do humor, “Casos de Romualdo”, escrito pelo primeiro regionalista brasileiro, o homem que virou estátua, João Simões Lopes Neto.

Num tapa, já estava com dez livros, e havia outros tantos autores: Moizés Vasconcellos, Nauro Júnior, Klécio Santos, Wolney Castro, Jarbas Tomaschewski, Sergio Cabral, Duda Keiber, Deco Rodrigues, Rafael Sica, Lenir de Miranda, Felipe Povo... e vamos parar por aqui com essa lista. No aniversário do ano que vem, podemos fechar com um livro ou dois mais recentes, quem sabe até de minha autoria.


segunda-feira, 19 de junho de 2023

Pimenta na narrativa dos outros é refresco

Imagine um quitandeiro espremendo um limão. Ele vende o suco para duas pessoas. Uma diz: “Realmente, é limão, mas é estranho, pois tem cor de laranja.” A outra diz: “Essa acidez parece de abacaxi e tem gosto de tamarindo.” Assim é o diálogo contemporâneo. A opinião está se sobressaindo ao fato. Uma vez dentro do universo digital, junta-se a bilhões de usuários que criam e absorvem conteúdo de forma contínua, deslizando em timelines sem fim.


Dessa forma, no diálogo social, cada um puxa a brasa para o seu assado. As pessoas consomem informações e as descrevem de acordo com o que lhes é mais conveniente. Comem sardinha e arrotam caviar. Esse é um conceito conhecido como narrativa ou pós-verdade. Funciona como um dispositivo retórico em que, diante de um fato, não se busque mais a verdade absoluta, apenas há versões em competição.


Em nosso planeta, existem espécies com dietas restritas: herbívoros, carnívoros, frutíferos, entre outros. O ser humano tem uma alimentação diversificada, mas está se destacando como "informívoro", uma vez que precisa de acesso à informação para sobreviver e fornecer energia ao corpo. Algumas horas sem bateria ou com o celular quebrado são o suficiente para dar início a uma espécie de inanição.


Esse comportamento pode soar um tanto exagerado, então assim que você terminar de ler essa crônica, repare se as pessoas à sua volta também estão mexendo no smartphone. Nos tornamos um Pac-Man de conteúdo. A questão é que as sociedades digitalizadas vêm tratando temas complexos como política, por exemplo, baseando-se somente em convicções. Cada qual se alimenta apenas da versão que serve ao paladar, as outras estarão sempre mal temperadas. Aliás, pimenta na narrativa dos outros é refresco. 


quarta-feira, 29 de março de 2023

Inteligência artificial não anda de skate

Há diversos artigos na imprensa falando sobre a possibilidade das IAs superarem o ser humano. A ficção científica é uma realidade. As IAs já conseguem enxertar em nosso cotidiano digital: textos, imagens, vídeos que pedirmos para elas criarem. Esse texto que lês agora, uma IA poderia construir facinho, facinho. Mas entendo que uma IA ainda é uma espécie de robô melhorado, e faz as coisas de acordo com o comando que lhe é dado. 

Assim, a IA vai produzir o material que for estimulada pela imaginação humana. Podes pedir para ela a fórmula da bomba atômica, ou a receita do pão cacetinho, uma IA consegue computar séculos de informações, mastigar e entregar de bandeija. O futuro da vida intelectual está em seus circuitos. 

O que uma IA está longe de fazer é andar de skate, essa emoção ela só vai ter noção cognitiva. Mesmo que ela saiba detalhe por detalhe do documentário - Tony Hawk: Até as Rodinhas Caírem, não tem um coração para sentir a emoção de acertar uma manobra. 

terça-feira, 28 de março de 2023

O jornalista de dados é um idiota da objetividade

Diariamente são produzidos 2,5 exabytes na rede. Um exabyte equivale a um quatrilhão de bytes.  Um quatrilhão é representando pelo  número 1 seguido de 18 zeros. Não cabe com esse número fazer uma metáfora com mar, tipo: é um mar de dados. Fica mais explicativo dizer que é uma galáxia de dados. Veja a dimensão de informações que há possibilidade de reportar diariamente, claro, tem que ter, no caso dos jornalistas, faro. 

O Paulo Francia dizia, "tudo que está na internet eu já sei desde os 12 anos". Era uma ironia, e quando ele falou essa frase, lá por 1996, a internet estava saindo das fraudas e aprendendo a sentar no vazo. Depois que a internet firmou as nádegas no acento, as redes sociais foram criadas aos montes, as pessoas começaram a falar o que bem quisessem - o bolo alimentar caiu no sanitário.

Os quintilhões de dados que tem na internet, bem organizados, podem servir de material para uma história. Mas não esqueça também que números podem mostrar dor, sofrimento, alegria, sorrisos, ou seja, os sentimentos humanos. Humanize os dados. Quando Édipo disse que matou o seu pai e cassou com sua mãe, por volta de 4 mil a.c., fou muito mais emocionante do que a chegada do homem na lua, aquele deserto cinza e sem vida. 

Mas há uma fórmula infalível no livro Os Homens do Presidente: follow the money.


segunda-feira, 27 de março de 2023

É mais fácil parar de fumar do que parar de fazer arte


Quem contempla a cidade com atenção sempre compreende um novo detalhe: desde a simetria dos telhados até as texturas do calçamento, passando por ornamentos enferrujados na fachada do casarão, ou até mesmo a parede lisa, tudo se torna assunto, obstáculo ou suporte. A cidade é uma obra de arte complexa e particular.

O artista que procura inspiração na cidade, uma vez fisgado pela sua exuberância, submete-se a sua profusão de possibilidades. Passa a esfregar-se sobre o mobiliário urbano a procura de um novo ponto em que possa executar sua expressão. Vivendo nessa simbiose prazerosa e incontrolável, em alguns casos, artistas que encontrar barreiras (financeira, doentia ou da lei) para fazer a sua arte, tendem a se aproximar à margem do desespero e da loucura.

Foi com esse imaginário que fui ver os trabalhos apresentados pelo Aloízio Xator no Mucha Arte, vernissage que redecorou as paredes do restaurante Madre Mia, em Pelotas. Os trabalhos do Xator são construídos com a vivência das ruas, e num desses rolês, ele descrevendo como se sentia, disse: “É mais fácil parar de fumar do que parar de fazer arte”.