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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O dicionário Oxford veio nos lembrar do nascer do sol no Laranjal

A internet surgiu com a esperança de aproximar as pessoas e qualificar o debate social. Nos anos noventa, o sociólogo Pierre Lévy escreveu que o mundo virtual democratizaria o conhecimento, promoveria a comunicação contínua e, quem sabe, melhoraria o convívio entre as nações. Até certo ponto, isso de fato aconteceu. Como estamos habituados, as plataformas que hoje conectam a população mundial são conhecidas como redes sociais.

As redes sociais revolucionaram as relações interpessoais. Lembro que um dos benefícios iniciais foi permitir que as pessoas se reencontrassem: amigos que se mudaram para outros estados, parentes desaparecidos, colegas que estudaram juntos há mais de trinta anos conseguiram se conectar — de graça — e compartilhar notícias de suas vidas. Contudo, há um lema cyberpunk (hoje atribuído ao documentário O Dilema das Redes) que afirma: “Se você não está pagando pelo produto, o produto é você”. A grande inovação mercadológica das empresas do Vale do Silício está na coleta massiva de dados, aliada à publicidade direcionada.

Com o avanço do mundo digital, o smartphone levou a internet para o bolso das pessoas, e as redes sociais evoluíram de um espaço de conversa para plataformas de compartilhamento de conteúdo. Atualmente, essas redes mantêm a atenção dos usuários com timelines de rolagem infinita, estimulando um alto consumo. Como consequência desse hábito, surgiram problemas de saúde. Estudos apontam que o uso excessivo de redes sociais, especialmente entre os jovens, reduz a curiosidade por exercícios intelectuais e, consequentemente, o interesse pelos estudos.

A palavra do ano escolhida pela Oxford University Press é “Brain Rot”, que significa “deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa”. Atualmente, a expressão é usada para descrever a patologia causada pelo consumo excessivo de conteúdo trivial online. Porém, o termo apareceu pela primeira vez no livro Walden ou A Vida nos Bosques, do filósofo americano Henry David Thoreau, um transcendentalista que buscava, em meio à natureza, “reduzir a vida ao essencial”. Entretanto, não é necessário se mudar para o mato, mas neste verão, passar um tempo com a família aproveitando a natureza pode ser uma experiência interessante. Em Pelotas, não temos o lago Walden, mas contamos com a Laguna dos Patos e um nascer do sol deslumbrante na praia do Laranjal.

P.S.: Não se esqueça de levar o celular, gravar tudo e publicar nas redes - eu também quero ver.



segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Terminado este café, vou até a Feira do Livro

A tampa da caneta BIC ganha marcas de mordidas enquanto tento puxar da memória respostas para: “Fato que ampara a decisão judicial → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”; “Moeda da Arábia Saudita → _ _ _ _”; ou ainda: “Caminho da cruz → _ _ _ _ _ _ _ _”. Eu poderia estar com a mão no queixo, como na escultura O Pensador, de Rodin. Na verdade, estou com uma expressão meio boba, fazendo palavras cruzadas em uma edição do jornal A Hora do Sul, apoiada no balcão do Café Aquários.

Quem gosta de palavras cruzadas sabe que pedir ajuda ao Google ou ao ChatGPT tira toda a graça do jogo. É instigante encarar os enigmas: “Único ácido nucleico do vírus → _ _ _”; “O pesquisador como os irmãos Villas-Bôas → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”; “Ator que viveu Moacyr na novela Cara e Coragem → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”. Ir contando o número de letras e se perguntando: que palavra será essa?

Foi nesse mesmo balcão que vi um cruzadista resolver quase todas as palavras do quadro antes de terminar a xicrinha de café. Num primeiro momento, duvidei da habilidade dele. Quis acreditar que era um farsante, um exibido que preenchia os quadrinhos de forma improvisada, anotando qualquer palavra que coubesse. Mas a revista Coquetel que ele usava era um tomo com mais de cem páginas.

Quem carrega uma revista Coquetel desse volume deve ser um mestre, um clínico geral das palavras. Por isso, irei buscar outras palavras que me ajudem a cultivar esse novo hábito. Terminado este café, vou até a praça comprar alguns livros na 50ª Feira do Livro de Pelotas.

Soluções: 10/precedente; 4/rial; 8/via sacra; 3/ARN; 10/sertanista; 14/Marcelo Serrado

domingo, 14 de abril de 2024

O dia em que o Ziraldo me ensinou a ser eu

 Talvez por não estar passando nenhum desenho legal na TV, pedi à minha mãe para alugar uma fita e assistir um filme no videocassete. Nessa época, eu tinha entre 6, 7 ou 8 anos. Com uma naturalidade surpreendente, ela concordou que eu fosse a locadora e escolhesse o filme que quisesse. Porém, fez uma ressalva: “Não vai pegar de novo aquele do Menino Maluquinho, tu já viu duas vezes‘‘. Esse foi o dia em que o Ziraldo me ensinou a ser eu.

Pois lá fui eu todo prosa, pela primeira vez, sozinho, escolher um filme. A locadora ficava a umas três quadras da minha casa. Eu estava acostumado a servir de estafeta para ir à padaria ou ao mercadinho fazer pequenas compras. Na locadora, no entanto, além dos filmes de terror que me faziam dormir de luz acesa, tinha uma salinha reservada, que eu respeitava sem mesmo ter ideia do que era, onde só entravam adultos.

As paredes eram forradas de suportes nos quais ficavam encaixados os encartes das fitas VHS. Nos encartes dos filmes disponíveis, ficava inserido uma etiqueta de papel que era entregue ao atendente no balcão. Enquanto escolhia, fiquei em dúvida entre um desenho da Disney e uma série japonesa com um herói futurista. Dando mais uma olhada, reparei que na parte de baixo da parede havia três cópias de “Menino Maluquinho – O Filme‘‘, e apenas uma delas continha a etiqueta.

Ziraldo nos deixou este mês, aos 91 anos. Foi um homem dedicado à infância. Sua obra de um humor elegante, incentivou muitas crianças a compreenderem o mundo. Ainda nas séries iniciais, também assisti a um curta-metragem educativo com o nome: “Ler é mais importante que estudar‘‘. Essa frase me transformou em leitor. E é com ela que venho construindo minha vida. Por tudo isso, naquela tarde na locadora, entendi que a orientação da minha mãe não condizia com a vontade que eu senti de rever o filme naquele momento. Num impulso de personalidade, puxei a etiqueta e voltei correndo para casa para assistir o Maluquinho.