sábado, 13 de janeiro de 2024

A cerveja gelada reuniu a turma de sonhadores

Praia, sombra e água fresca: a fórmula do conforto no verão. Quem tem dinheiro se retira para relaxar na lagoa ou se embalar nas ondas do mar. Mesmo aqui pertinho, no Laranjal, ou na maior praia do mundo, são refúgios mais interessantes do que apreciar o sol escaldante sobre o asfalto. Na cidade, só ficam os proletários, os desocupados e jornalistas como eu, que têm de ganhar a vida.

Mas entre um dia e outro, tive um período de recesso e pude colocar o celular no silencioso. Assim, vagabundeei tranquilo pelas livrarias em busca de maravilhas intelectuais feitas por esses tais seres humanos. Num desses dias, voltando para casa, encontrei uns amigos bebendo cerveja. O sol já havia caído e um vermelho-púrpura tingia o crepúsculo.

E de um punhado de amigos foram se juntando outros, e mais alguns, até formarmos um grupo de vagabundos iluminados. Sonhadores que narravam os prazeres da criação, o nascimento de ideias e sua elaboração através da pintura, música, fotografia, desenho, escrita... Foi a noite quente do janeiro pelotense, e a cerveja gelada que instigou a confraternização daqueles que acreditaram na arte com todo furor de sua juventude.

E no meio da madrugada, na boa e velha esquina do Papuera, ríamos cambaleantes e lembrávamos de planos feitos para vida, em alguma noite de tempos passados nessa mesma esquina do Porto. Assim como eu sonhava em escrever algo como Sal Paradise: naquela época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah”.


domingo, 7 de janeiro de 2024

Ideias para uma leitura experimental

Para avançar na leitura é preciso bunda na cadeira. Ou mesmo, estar atirado num sofá confortável. Mas, nem sempre se consegue um ambiente adequado. No verão, o ato da leitura é mais aventureiro. Digo isso, pois, no verão aqui em casa é possível ler em todos os cômodos, o que no inverno não é bem assim. No inverno é frio como na São Petersburgo do Raskólnikov, e úmido como gabardine londrino. Voltamos então ao verão...

Sinta essa brisa soprando do janelão da sala, tão refrescante, tão compatível que ajuda inclusive no passar de páginas. Até no quartinho do fundo, no cantinho das roupas sujas, onde dorme a quinquilharia, ao lado do caixote de livros que serão doados à igreja, se transforma num local propício para praticar a imaginação. É como se a leitura no verão déssemos para procurar locais de poder, como o brujo Don Juan ensinava ao Carlos Castañeda.

Isso me deu uma ideia, iniciar uma prática de leitura experimental. Vocês já imaginaram ler de cabeça para baixo? Ler em um pé só? Ou mesmo equilibrar o livro sobre os joelhos? Poderíamos qualificar essas técnicas a uma espécie de Yoga: o Yoga Literária, ia ser experiência de transcendência com letras. Humm... senti a lâmpada acendendo.

Com isso, lembrei do Paramahansa Yogananda, o cara que disseminou a Yoga no ocidente. Como de hábito, sua data de nascimento é 5 de janeiro, e todos sabemos: o hábito faz sim o monge. Então, nesse verão, para entender um pouco mais dos princípios básicos da espiritualidade e da meditação, procure o livro “Autobiografia de um Iogue”. Quem sabe leia fazendo o Trikonasana. 

domingo, 31 de dezembro de 2023

Quer ler mais? Aprenda o passo a passo de uma técnica infalível

De acordo com o tamanho dos jornais de domingo, as pessoas tem mais tempo para leitura quando não estão trabalhando. Com isso, compreendo que, nos dias de semana é difícil parar e se concentrar em um texto. Se o texto do jornal não for de interesse pessoal, passa batido. Assim como um reel de uma prensa de 100 toneladas esmagando moedas.

Se o texto estiver em livro, aí é coisa de excepcionais. No cotidiano pelotense, não é comum vermos pessoas lendo em espaços públicos. Eu mesmo já me senti observado quando empunhava um pocket no ônibus, ou na fila do banco. Como fazer as pessoas gostarem de ler? Essa resposta vale milhões.

E aqui no blog, queremos encontrar essa resposta. Para isso, contamos com você. Não precisa enviar um PIX, nem parcelar no crédito, o tesouro mais precioso da pós-modernidade é sua Atenção. Coloque a leitura nos seus objetivos para 2024. Vamos trocar nossas impressões do mundo através do texto. Uma coisa eu posso garantir: vale a pena ganhar tempo com leitura. Estarei aqui aos domingos.

Agora o gran finale, a divulgação daquilo que você veio aprender depois de ler o título. Bom, já adianto, não é uma técnica nova, mas certifico que é infalível. Desde os leitores chineses do deserto de Taklimakan, onde foi escrito e copiado para o papel o Sutra-Diamante, considerado o mais antigo livro da civilização, essa técnica vem sendo praticada. Então vamos lá, passo um: sente-se uma poltrona confortável; passo dois: pegue um livro de sua preferência (indicaria A Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro, com passagens interessantíssimas de humor e sacanagem); passo três: abra o livro e inicie a leitura.

Feliz Ano Novo

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Palavra nova que dispensa explicação

A primeira vez que ouvi Novos Baianos, num apartamento enfumaçado no início dos anos 2000, aprendi uma nova linguagem. 

O sol se punha e seus raios alaranjados mostravam o efeito tyndall na dançante fumaça densa e cheirosa. Uma luminária com lâmpada de lava borbulhava. Estirado para dentro do sofá, sentia um sensação de prazer nos olhos.

A cantora ensinava: "Be-o-bó-le-a-la, bola / Te-é-té-le-a-la, tela / A-te-é-té-le-a-la, a te lá / Te-Lê-a-la-le-e-lê-li, lua / Re-a-rá-rê-e-ré-rê-e-ri, rua". Palavras novas que dispensavam explicação. Pra lá, muito pra lá de alucinação. Era a Linguagem do Alunte.

Uma banda crivada de criatividade. Gosto de dizer que é algo meio Jimi Hendrix misturado com Chiclete com Banana. Uma convulsão em percussão e guitarra eletrônica, teclado, cuíca e samba and roll.

O disco Novos Baianos F.C. completou 50 anos.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Um motivo para arrumar a bicicleta

Muito se fala sobre a importância de acorda cedo para o dia ser proveitoso. Eu acredito. Inclusive, esses dias,  na padaria, apontei para a vizinha o livro O Milagre da Manhã, que estava na revistaria perto do caixa. Ela comprou pão e livro, eu fiquei com pão e leite.

Ingredientes para o café da tarde, é claro. Pela manhã, no máximo, eu saio comendo uma fruta. Não por falta de apetite, pelo horário estar estourando mesmo. Acordar cedo é como comer  hambúrguer de lentilha.

Sempre achei que poderia ser jornalista, mas nunca me imaginei jornaleiro. Eu gostaria de ir de casa em casa (hoje em dia poucas), deixar o jornal na porta do assinante. Mas em Pelotas só há jornal matutino.

Tá aí uma boa ideia, um jornal vespertino, algo tipo: Jornal da Noite. Um jornal que seja entregue por volta das 18:00 horas, com as notícias fresquinhas que aconteceram no mesmo dia. Se esse jornal sair do papel, quem sabe eu comece a pedalar mais. 


terça-feira, 25 de julho de 2023

211 anos em onze livros de Pelotas

Fui à prateleira de autores pelotenses com a ideia de fazer uma lista com onze romances. Poderia começar com “A Revolta dos Agachados” de Luiz Carlos Freitas, juntar com “Senhora do Amor” de Manoel Soares Magalhães, “Os Fios Telefónicos” de Fernando Melo e fechar um quarteto com “Satolep” de Vitor Ramil. Este último é marcante para a alfabetização artística e histórica da cidade. Conheço pessoas que, depois de lerem "Satolep", começaram a se dedicar à fotografia, outros a escrever poemas e alguns a beber absinto e correr dentro do canalete.

Ainda roçando as lombadas, percebi que havia outros gêneros indispensáveis. Folheei “História aos Domingos”, com artigos publicados no Diário Popular por Mário Osório Magalhães. Ao lado estavam “Pelotas dos Excluídos” e “No Tempo dos Chafarizes” de A.F. Monquelat. Tirei da prateleira e coloquei na mesa “Retratos de Uma Cidade”, um catálogo com fotografias de 1913 a 1930, de Raquel Schwonke e Francisca Michelon. Um livro fantástico para enxergar o quando a cidade se modificou pouco em cem anos.

Imerso nesse esquema, reli os versos: Cismas... os campos reverdecem úmidos, / E o vento arrulha no cipreste esguio; / Passa cantando a sertaneja pálida, / Dorme chorando o laranjal sombrio, do poema “Auras da Tarde” de Lobo da costa. Em seguida, ergui o clássico dos clássicos da linguagem e do humor, “Casos de Romualdo”, escrito pelo primeiro regionalista brasileiro, o homem que virou estátua, João Simões Lopes Neto.

Num tapa, já estava com dez livros, e havia outros tantos autores: Moizés Vasconcellos, Nauro Júnior, Klécio Santos, Wolney Castro, Jarbas Tomaschewski, Sergio Cabral, Duda Keiber, Deco Rodrigues, Rafael Sica, Lenir de Miranda, Felipe Povo... e vamos parar por aqui com essa lista. No aniversário do ano que vem, podemos fechar com um livro ou dois mais recentes, quem sabe até de minha autoria.


segunda-feira, 19 de junho de 2023

Pimenta na narrativa dos outros é refresco

Imagine um quitandeiro espremendo um limão. Ele vende o suco para duas pessoas. Uma diz: “Realmente, é limão, mas é estranho, pois tem cor de laranja.” A outra diz: “Essa acidez parece de abacaxi e tem gosto de tamarindo.” Assim é o diálogo contemporâneo. A opinião está se sobressaindo ao fato. Uma vez dentro do universo digital, junta-se a bilhões de usuários que criam e absorvem conteúdo de forma contínua, deslizando em timelines sem fim.


Dessa forma, no diálogo social, cada um puxa a brasa para o seu assado. As pessoas consomem informações e as descrevem de acordo com o que lhes é mais conveniente. Comem sardinha e arrotam caviar. Esse é um conceito conhecido como narrativa ou pós-verdade. Funciona como um dispositivo retórico em que, diante de um fato, não se busque mais a verdade absoluta, apenas há versões em competição.


Em nosso planeta, existem espécies com dietas restritas: herbívoros, carnívoros, frutíferos, entre outros. O ser humano tem uma alimentação diversificada, mas está se destacando como "informívoro", uma vez que precisa de acesso à informação para sobreviver e fornecer energia ao corpo. Algumas horas sem bateria ou com o celular quebrado são o suficiente para dar início a uma espécie de inanição.


Esse comportamento pode soar um tanto exagerado, então assim que você terminar de ler essa crônica, repare se as pessoas à sua volta também estão mexendo no smartphone. Nos tornamos um Pac-Man de conteúdo. A questão é que as sociedades digitalizadas vêm tratando temas complexos como política, por exemplo, baseando-se somente em convicções. Cada qual se alimenta apenas da versão que serve ao paladar, as outras estarão sempre mal temperadas. Aliás, pimenta na narrativa dos outros é refresco.