quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

A Guerra do Fotojornalismo

O mês de fevereiro começou com uma denúncia bombástica no mundo da fotografia. O documentário The Stringer(2025), que estreou no Festival de Sundance, na Califórnia, trouxe o argumento de que a icônica fotografia "Garota de Napalm" foi creditada ao fotógrafo errado. O fotojornalista Nick Ut ganhou um prêmio Pulitzer pelo registro da cena marcante da Guerra do Vietnã. No entanto, cinquenta anos depois, outro fotógrafo surgiu reivindicando a autoria da imagem.


O filme apresenta uma entrevista com Carl Robinson, editor que trabalhava no escritório da AP em Saigon no dia em que a imagem foi captada. Na entrevista, ele afirma que o chefe de fotografia, Horst Faas, ordenou que ele escrevesse a legenda da fotografia atribuindo-a a Nick Ut. Depois dessa entrevista, os realizadores conseguiram identificar o nome do fotógrafo freelancer vietnamita, que aparece em outras fotos do mesmo dia: Nguyen Thanh Nghe. Nguyen afirma ter certeza de que foi ele quem tirou a fotografia que ficou conhecida como “Garota de Napalm’’.


O fotojornalista Nick Ut, a AP e Horst Faas negam as denúncias e afirmam que será aberta uma ação por difamação contra os realizadores do filme.


A fotografia mais marcante da Guerra do Vietnã mostra um grupo de pessoas fugindo de um ataque de napalm. Entre elas, a garota Phan Thi Kim Phúc, de nove anos, que corria nua, após tirar suas roupas que estavam em chamas. A imagem foi amplamente divulgada pela imprensa internacional e se tornou um símbolo do custo humano dos ataques, influenciando a opinião pública, principalmente nos EUA, a protestar pelo fim da guerra.


Na Guerra do Vietnã (1955-1975), os EUA investiram bilhões de dólares para conter a expansão do comunismo no Sudeste Asiático, ampliando seu envolvimento militar no Vietnã do Norte, no Laos e no Camboja. Acompanhando um exército americano bem estruturado, muitos jornalistas estiveram na linha de frente, registrando as operações militares. Foi o conflito mais documentado do século XX, e ficou conhecido como "a guerra do fotojornalismo".


sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Quem deixou a forminha de gelo sem água?

O audiovisual é a principal linguagem de consumo. Maratonar séries na Netflix tornou-se um hábito tão consolidado quanto o gosto dos pelotenses por maionese. Inclusive, vamos fazer um bom uso dessa iguaria, maionese é apenas para comer, não para viajar. Pois, há outro hábito que nos leva a verdadeiras viagens e que domina nossa rotina: assistir vídeos nas redes sociais.


Quantos vídeos uma pessoa assiste diariamente no Instagram? Eu chutaria algo em torno de quinhentos a mil, para um usuário médio. Agora, para quem nasceu na era da internet e está agarrado à tela desde o berço, aí a conta vai longe. Mas, na minha infância, eu também estive na linha de frente dessas estatísticas. Quando a PANSAT começou a operar, seguida pela NET, a TV a cabo causou um impacto semelhante.


O TikTok dos anos 90 era o Cartoon Network. Era fácil passar mais de dez horas assistindo desenhos. Para melhorar essa experiência, era necessário um pouco de habilidade na cozinha, pois os nuggets eram preparados no forno a gás e a pipoca na panela. E, como pipoca é sinônimo de cinema, o interesse pelo canal Telecine surgia naturalmente. Em um verão como este, enquanto os amigos brincavam na rua, assisti a M, O Vampiro de Dusseldorf (1931) e Um Retrato de Mulher (1944), ambos do diretor Fritz Lang. Clássicos inesquecíveis. 


Janeiro de 2025 iniciou promissor para o audiovisual brasileiro. Fernanda Torres conquistou o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama pelo longa Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles. Um prêmio inédito que está influenciando o interesse dos espectadores pelo cinema nacional. Nas tardes de férias de verão, não há nada melhor do que escolher um filme, botar a pipoca para estourar no microondas, pegar uma bebida no armário, abrir o freezer e se deparar com a surpresa: quem deixou a forminha de gelo sem água? 


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O dicionário Oxford veio nos lembrar do nascer do sol no Laranjal

A internet surgiu com a esperança de aproximar as pessoas e qualificar o debate social. Nos anos noventa, o sociólogo Pierre Lévy escreveu que o mundo virtual democratizaria o conhecimento, promoveria a comunicação contínua e, quem sabe, melhoraria o convívio entre as nações. Até certo ponto, isso de fato aconteceu. Como estamos habituados, as plataformas que hoje conectam a população mundial são conhecidas como redes sociais.

As redes sociais revolucionaram as relações interpessoais. Lembro que um dos benefícios iniciais foi permitir que as pessoas se reencontrassem: amigos que se mudaram para outros estados, parentes desaparecidos, colegas que estudaram juntos há mais de trinta anos conseguiram se conectar — de graça — e compartilhar notícias de suas vidas. Contudo, há um lema cyberpunk (hoje atribuído ao documentário O Dilema das Redes) que afirma: “Se você não está pagando pelo produto, o produto é você”. A grande inovação mercadológica das empresas do Vale do Silício está na coleta massiva de dados, aliada à publicidade direcionada.

Com o avanço do mundo digital, o smartphone levou a internet para o bolso das pessoas, e as redes sociais evoluíram de um espaço de conversa para plataformas de compartilhamento de conteúdo. Atualmente, essas redes mantêm a atenção dos usuários com timelines de rolagem infinita, estimulando um alto consumo. Como consequência desse hábito, surgiram problemas de saúde. Estudos apontam que o uso excessivo de redes sociais, especialmente entre os jovens, reduz a curiosidade por exercícios intelectuais e, consequentemente, o interesse pelos estudos.

A palavra do ano escolhida pela Oxford University Press é “Brain Rot”, que significa “deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa”. Atualmente, a expressão é usada para descrever a patologia causada pelo consumo excessivo de conteúdo trivial online. Porém, o termo apareceu pela primeira vez no livro Walden ou A Vida nos Bosques, do filósofo americano Henry David Thoreau, um transcendentalista que buscava, em meio à natureza, “reduzir a vida ao essencial”. Entretanto, não é necessário se mudar para o mato, mas neste verão, passar um tempo com a família aproveitando a natureza pode ser uma experiência interessante. Em Pelotas, não temos o lago Walden, mas contamos com a Laguna dos Patos e um nascer do sol deslumbrante na praia do Laranjal.

P.S.: Não se esqueça de levar o celular, gravar tudo e publicar nas redes - eu também quero ver.



segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Terminado este café, vou até a Feira do Livro

A tampa da caneta BIC ganha marcas de mordidas enquanto tento puxar da memória respostas para: “Fato que ampara a decisão judicial → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”; “Moeda da Arábia Saudita → _ _ _ _”; ou ainda: “Caminho da cruz → _ _ _ _ _ _ _ _”. Eu poderia estar com a mão no queixo, como na escultura O Pensador, de Rodin. Na verdade, estou com uma expressão meio boba, fazendo palavras cruzadas em uma edição do jornal A Hora do Sul, apoiada no balcão do Café Aquários.

Quem gosta de palavras cruzadas sabe que pedir ajuda ao Google ou ao ChatGPT tira toda a graça do jogo. É instigante encarar os enigmas: “Único ácido nucleico do vírus → _ _ _”; “O pesquisador como os irmãos Villas-Bôas → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”; “Ator que viveu Moacyr na novela Cara e Coragem → _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _”. Ir contando o número de letras e se perguntando: que palavra será essa?

Foi nesse mesmo balcão que vi um cruzadista resolver quase todas as palavras do quadro antes de terminar a xicrinha de café. Num primeiro momento, duvidei da habilidade dele. Quis acreditar que era um farsante, um exibido que preenchia os quadrinhos de forma improvisada, anotando qualquer palavra que coubesse. Mas a revista Coquetel que ele usava era um tomo com mais de cem páginas.

Quem carrega uma revista Coquetel desse volume deve ser um mestre, um clínico geral das palavras. Por isso, irei buscar outras palavras que me ajudem a cultivar esse novo hábito. Terminado este café, vou até a praça comprar alguns livros na 50ª Feira do Livro de Pelotas.

Soluções: 10/precedente; 4/rial; 8/via sacra; 3/ARN; 10/sertanista; 14/Marcelo Serrado

domingo, 14 de abril de 2024

O dia em que o Ziraldo me ensinou a ser eu

 Talvez por não estar passando nenhum desenho legal na TV, pedi à minha mãe para alugar uma fita e assistir um filme no videocassete. Nessa época, eu tinha entre 6, 7 ou 8 anos. Com uma naturalidade surpreendente, ela concordou que eu fosse a locadora e escolhesse o filme que quisesse. Porém, fez uma ressalva: “Não vai pegar de novo aquele do Menino Maluquinho, tu já viu duas vezes‘‘. Esse foi o dia em que o Ziraldo me ensinou a ser eu.

Pois lá fui eu todo prosa, pela primeira vez, sozinho, escolher um filme. A locadora ficava a umas três quadras da minha casa. Eu estava acostumado a servir de estafeta para ir à padaria ou ao mercadinho fazer pequenas compras. Na locadora, no entanto, além dos filmes de terror que me faziam dormir de luz acesa, tinha uma salinha reservada, que eu respeitava sem mesmo ter ideia do que era, onde só entravam adultos.

As paredes eram forradas de suportes nos quais ficavam encaixados os encartes das fitas VHS. Nos encartes dos filmes disponíveis, ficava inserido uma etiqueta de papel que era entregue ao atendente no balcão. Enquanto escolhia, fiquei em dúvida entre um desenho da Disney e uma série japonesa com um herói futurista. Dando mais uma olhada, reparei que na parte de baixo da parede havia três cópias de “Menino Maluquinho – O Filme‘‘, e apenas uma delas continha a etiqueta.

Ziraldo nos deixou este mês, aos 91 anos. Foi um homem dedicado à infância. Sua obra de um humor elegante, incentivou muitas crianças a compreenderem o mundo. Ainda nas séries iniciais, também assisti a um curta-metragem educativo com o nome: “Ler é mais importante que estudar‘‘. Essa frase me transformou em leitor. E é com ela que venho construindo minha vida. Por tudo isso, naquela tarde na locadora, entendi que a orientação da minha mãe não condizia com a vontade que eu senti de rever o filme naquele momento. Num impulso de personalidade, puxei a etiqueta e voltei correndo para casa para assistir o Maluquinho.


sexta-feira, 12 de abril de 2024

O melhor romance contemporâneo

Olhei de novo, depois de um hiato torporizado, para a tela do celular, que ainda exibia uma matéria sobre o assassinato de Andrei Dukelsky no site da Zero Hora. Dei scroll na notícia, molhando toda a tela de vidro do iPhone com o suor do dedo. De acordo com a namorada do Andrei, uma tal de Francine Pedroso, ele tinha saído para correr em torno das nove e meia da noite e levava consigo somente a chave de casa e o smartphone, que foi roubado pelos criminosos. Não havia testemunhas, embora o local onde o crime aconteceu fosse uma área de movimento moderado, mesmo à noite. “Um dos maiores novos talentos da literatura brasileira contemporânea”, era o aposto que o texto lhe concedia. “Duque, como era chamado pelos amigos”. Havia uma hashtag #AdeusDuque oferecendo consulta instantânea às manifestações de choque e tristeza de seus leitores e amigos nas redes sociais. Não tive coragem de clicar nela.

“Meia Noite e Vinte‘‘, Daniel Galera - Companhia das Letras, 2016

domingo, 21 de janeiro de 2024

As diversas faces de um escritor

Essa semana eu fui visitar o poeta, Valder Valeirão. Naturalmente acreditava que trocaríamos ideias com referências do caldo artístico que sorvemos ao longo da vida. Asim, filosofamos e tomamos chimarrão. Eu não o conhecia pessoalmente e, apesar de acompanhar sua carreira como design, não tinha noção do tanto de trabalhos que passaram pela sua criatividade. O espanto foi quando nós começamos a remexer em sua biblioteca. O Valder me falou sobre o livro do "domenico m. miglio", eu respirei fundo.

Como assim o Monquelat escreveu um livro com pseudônimo? Fiquei muito surpreso. Entendi que apesar de ter frequentado a livraria do A. F. Monquelat por anos, ainda faltaram conversas. Havia assuntos que eu não tinha conseguido captar, talvez pela minha pouca idade, talvez pela minha ingenuidade. Agora, estava em minhas mãos um livro inédito, de um amigo que muito me influenciou na arte da leitura.

Quando eu me deparei com a capa do livro: Luíza (caminho de uma paixão), senti a mesma sensação de quando peguei em mãos, na própria livraria Monquelat, o primeiro volume do romance, Asfalto Selvagem. Eu sabia que ali estava escrita uma obra surpreendente, talvez surpreendente para o meu paladar de leitor. Um paladar que devorou Luíza numa sentada. E ao mesmo tempo que ficava alegre a cada passagem lida, me sentia traído por não ter sido apresentado ao texto pelo autor. 

Com isso fiquei matutando sobre a personalidade do escritor, ou as múltiplas personalidades do escritor, e suas várias faces. O Adão, mais uma vez, me surpreendeu. E me surpreendeu como artista, me surpreendeu com sua obra. Ainda quero escrever melhor sobre Luíza. Realmente tive uma epifania do que é um escritor, e que realmente há literatura em Pelotas.